Mulheres divórcio datadas

Homem casadoiro, aguenta aí!

2014.02.10 13:43 ClayDatsusara Homem casadoiro, aguenta aí!

HOMEM CASADOIRO, AGUENTA AÍ !!!
Tenho um amigo, não posso dizer que seja o meu melhor amigo, mas também não é dos piores. Esse amigo chama-se Milan. Quando um amigo precisa de um bom conselho, é nossa obrigação dá-lo. Então, no dia do seu casamento, eu disse-lhe: — Sabes que isto é uma farsa, não sabes? — Ei! É o meu casamento! É agora! Vai acontecer! Por isso pára já com essa conversa! Um amigo sabe quando deve parar com as conversas quando outro amigo lhe pede. Calei-me bem calado e olhei o jovem casal com preocupação quando se apresentou frente ao padre. Não é que não goste dela. Acho-a super, como em super-divertida, super-inteligente e super-bonita. A expressão bom partido pode ser usada com mulheres? Se sim, ela é um bom partido. Mas o Milan não devia casar com ela. Nem com ninguém. — Ela chama-se Sandrine e é daquele tipo de mulheres por quem perdemos a cabeça, ao ponto de pensarmos em casamento – disse-me o Milan no dia em que a conheceu – pena já ter enfeitiçado um tonto que caiu no conto do vigário. Ai Milan, Milan... se me tivesses deixado falar, repetia-te a sentença que proferiste há sete anos atrás. Que me lembre, Sandrine encantou – como serpentes hipnotizadas – mais 7 ou 8 “tontos” depois desse a que Milan se referira quando a conheceu. Nenhum deles chegou ao ponto de a levar ao altar, porém Milan aqui estava, perante uma assembleia de almas pouco católicas, disposto a abdicar do Sol. do seu bilhete de identidade. Nem um sol aos quadradinhos para ele, apenas um Cas. como em ficar em casa todas as noites. E toda a gente sabe que as mulheres preferem o sexo matinal, naquelas horas em que tanto elas como os maridos estão a trabalhar. Uma pena, portanto, meu amigo Milan, que aceites dar o nó apenas para garantir uma suposta exclusividade, mesmo que a tua mulher seja essa bomba sexual, se não vais desfrutar dela na frescura matinal, mas apenas naquelas noites em que chegais cansados do trabalho e com mais sono do que libido... Não, não posso falar, devo-te isso, Milan, o respeito de velhos amigos e a aceitação recíproca das escolhas pessoais. Ainda assim, a meio da celebração, farto do mambo-jambo filosofal do padre, levanto-me e saio da igreja, não me importando com os olhares intrometidos de uns quantos velhos do restelo. Blah! É certo que não vou chegar àquele ponto da cerimónia em que o padre pergunta aos presentes se há alguém que se oponha à união daquelas duas pessoas. Se houver alguém que se tenha levantado e saído a meio do casamento, isso conta? A resposta é certamente não, pela festa a que assisto da esplanada onde estou sentado a beber um martini, quando eles saem da igreja, braço-dado, Milan e Sandrine, duas das melhores pessoas que já conheci, um casalinho feliz a levar com arroz nas trombas e flashes nos olhos. Faço fast-forward à sessão fotográfica e passo directamente para o próximo capítulo: a chamada função. A razão pela qual os casamentos ainda mantêm certa popularidade entre os jovens é o copo-de-água, ainda que copos de água sejam difíceis de encontrar nas mãos dos convidados. Se não houvesse este isco enganador, de haver bebida e comida à discrição contra pagamento de uma avultada soma monetária eufemisticamente nomeada “prenda”, eu nunca poria os pés em tal convívio social. Se não fosse a bebedeira subsequente, ninguém iria à igreja. É a única contrapartida possível, depois de passar largos minutos a ouvir alguém pregar moralidades datadas: beber uns copos e esquecer tudo o que se ouviu. O que ainda é mais chato num casamento é querermos ter uns minutos de conversa com o noivo ou com a noiva, ou mesmo com os dois em simultâneo, e não conseguirmos! Há sempre algo a fazer, fotos, brindes, comidas a entrar, discursos, danças, brindes, mais músicas, palhaços, filmes, brindes, bolos, brindes de champanhe, fogo de artifício e sei lá o que mais, que quando olhas as horas já está tudo bêbedo, inclusive os noivos, bêbedos demais para ouvirem os teus argumentos razoavelmente acertados sobre os porquês dos casamentos falhados e dos divórcios de que se ouve falar todos os dias. Se calhar, nem o Milan nem a Sandrine têm na família um historial tão grande de divórcios como eu tenho na minha. Não digo que seja por isso que não me caso, mas se algum deles tivesse pais divorciados, dois irmãos divorciados, dois pares de tios e tias divorciados, uma prima divorciada e até um cão divorciado na família, duvido que pensassem sequer em casamento. Mas não é isso que digo à Sandrine quando a apanho entre duas danças com velhos babados de luxúria. Digo-lhe apenas que é errado fazer um homem pensar que todos os seus problemas relacionados com a infelicidade poder ser resolvidos com juras oficiais de amor e outras tretas. — Sabes bem que ele me pediu em casamento, não o contrário... — Se fosse ao contrário ele ia perceber que é bom demais para ti – digo-lhe, mas logo me arrependo. Não acho isso verdade, que ele seja bom demais para ela, e nem que ela seja boa demais para ele. Não vejo as coisas assim, ninguém é melhor do que ninguém, e ninguém pode ser de ninguém. Não se pode esperar que uma mulher nunca mais vá sentir desejo sexual por outros homens para além de nós apenas por decidirmos tomá-la como esposa... É insano pensar assim. E se ela nos desperta paixão, então também é de esperar que desperte sentimentos semelhantes noutros homens. A única coisa que pode salvar a equação é a fidelidade, mas esta tem sempre de ser uma incógnita, um grande x, ainda para mais nos dias que correm, em que a liberdade e a auto-determinação são, justa ou injustamente, dependendo dos casos, sobrevalorizadas. É um discurso assim que quero fazer à Sandrine, no dia do seu casamento, para cúmulo das maldades, mas só me sai aquela porcaria de frase sobre ele ser melhor do que ela. — Estás bêbedo – a Sandrine responde-me de imediato – e tens de arranjar uma namorada a sério, para perceberes... Fico sem saber mais o que lhe dizer. Desculpa é a única opção, por isso calo-me no meu orgulho , vendo-a ser levada para o centro da ribalta, para mais brindes e palavras bonitas. Antes de me apetecer cair para o lado, no torpor lânguido das 4 da manhã, ainda consigo falar com o Milan, mas já bebi demais para fazer algum sentido, e não querendo prolongar a tristeza das minhas figuras, digo-lhe apenas parabéns. — Obrigado... Eu sei que não temos estado juntos como nos velhos tempos, mas vou-te compensar. Deixa só o pó assentar. — O pó assentar. Claro – repito de forma pouco convincente, mas logo ganho energias para terminar a conversa num tom positivo – Não... A sério, fico feliz por estares feliz. Não precisas de estar comigo, tenho a certeza que é bem melhor estar com a Sandrine :) Em troca das minhas palavras simpáticas, recebo um abraço sentido e decido que é a forma perfeita de fechar a noite. — Milan, me voy, passa uma boa lua-de-mel e não gastes a tua pujança toda na Sandrine. Em 8 dias podes dar umas voltas sozinho. Já estive no Brasil e as locais gostam de rodízio. Não faças nada que eu não fizesse e essas tretas do género. Chau. Boa viagem. Diz à tua nova mulher que mais vale só que mal acompanhada... Estou a brincar, Milan, dá aí mais um abraço! Não, a sério, gostei deste show, alguns actores não pareciam muito na personagem mas tu parecias sincero! Globo de Ouro, Milan! Desculpa, tá, vou embora, tá... tá... A pesadíssima ressaca do dia seguinte é sinal indesmentível que me diverti, muito até. No meu entender são inversamente proporcionais, bebedeiras e ressacas, porque só só consigo beber muito se me estiver a divertir. Então, mesmo que não me lembre de tudo o que aconteceu no dia anterior, tenho a certeza que me diverti no casamento do Milan, nem que a maior parte do gozo tenha vindo do escárnio e mal-dizer. Não compûs propriamente canções, mas consegui estruturar boas e variadas razões para não concordar com o casamento e me rir por cima. Porém, devo dizer que o casamento pode mudar as perspectivas de alguém (de alguém como eu...) em relação a essa cena toda da fidelidade, sexo, consciência, desejo, culpa, compromisso, etc. Apenas duas semanas depois deste casamento, no fim de uma sessão de sexo matinal, entro naquele informe estado de tristeza post-coitum, olho para o corpo humano demasiadamente familiar que se enrosca em mim e sinto que tenho de fazer a pergunta que ela não quer ouvir: — Por que é que te casaste mesmo, Sandrine?
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